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quinta-feira, setembro 04, 2008

vinho versus tinta


vinho versus tinta

se tivesse ao menos uma razão
confrontaríamos os versos
a reboque

nessa noite sem lua
que te fará
parto inválido
na querência do fundo

talvez fosse de um sorriso
a dor que nascera sem par
e etílico vicio
a tensão lacerante

confesso-te inconstante
que amei-te
por míseros trinta minutos

e agora que defunto
talvez use essa ida
pra causar mais
alguma ferida

debaixo de meu seio
a morte impera
nas coronárias do ser
que quase viveu intacto
e não sobreviveu

vinho tinto versus tinta
tintos versos.

segunda-feira, julho 28, 2008



galope

alforriado
cavalguei o tempo
sentindo o vento
da ignorância no rosto
infantil

já não sou inocente
e não acredito em liberdade.

terça-feira, maio 20, 2008




as ampulhetas têm furos
por onde vazam
grãos finos de areia
qualquer hora,
terei que revirar

em algum momento
estarei vazia de mim
e cheia desse nada que consome
animas humanas

é como me sinto
um embuste dentro
de tantos outros
sou ampulheta de vidro
olham-me e não me vêem.

domingo, maio 04, 2008

acendo cigarros para
vê-los queimar
deixei de me avisar
dos perigos que rodeiam
os que não oram

sou ateu e pagão

e esse muro enorme
é duro e discreto
e seus tijolos vermelhos
só servirão
todos de arrimo
para chocar-me com eles
até virar concreto.

quarta-feira, abril 30, 2008

íntimado

(para meu íntimo amado)

toma-a íntimo
por não ter
a dor de amador
ah, meu!
ah, tão teu!
que não toma
o id que me doma
a dor que me toma
ama-a
meu íntimo amado
íntima dor!

domingo, abril 27, 2008

já que os silêncios
aprofundaram-te a fala
que jaz, introspectiva
rogo que consiga eu me calar

pois não há por que de escrita
se não há ninguém para
interpretar

agasalha-te nesse ostracismo
forte e vicioso
que é ele que cabe
aos fortes de espírito
e sedentos de saber

fura esse engano torpe
que ilude os tímpanos
e alivia as dores

devassa as incondições
humanas
de enfrentamento da dor
e cataloga as incertezas
que habitam em tuas retinas

quem sabe daqui há dois mil
anos luz
descubram
Homo Sapiens sentimental
e comovam-se pois não passaria
de um homem-de-neandertal.

quinta-feira, abril 17, 2008





“O homem não é a soma do que tem, mas a totalidade do que ainda não tem, do que poderia ter.” - Jean-Paul Sartre

autodestruição

desejei o submundo
o cais do porto
a maresia que guarda tudo
o cheiro da morte

faltou-me o nome
sobrenome, pão
memória e costela
e ainda quis o desterro

destruí minha retórica
remoí minhas vísceras
e servi no jantar
com vinho barato

venéreo, contaminei algumas
virgens astutas
doces prostitutas
e carolas malamadas

desfolhei cadernos
anotações rasas
versos nulos
para amores vãos

e só tenho o que não quero
palavras falhas
mãos calejadas
e pensamentos execráveis

a vaga lembrança
que resplandeci
talvez amei, não sei,
já faz tanto tempo

antagônico aos desejos bobos
quereres utópicos, ouro dos tolos
almejei apenas ser sozinho
e não sou.

sexta-feira, abril 11, 2008

visagem




estes olhos
vendados em fuga
sem saber para onde
não têm porque

lajeados perdidos
em telas brancas
sob pincéis ásperos
e pouca tinta

em bocas desdentadas
recitam asco
fraquezas e taras
macias e aleijadas

vivem paraísos ilusórios
e pintam paisagens cinza
com a fumaça da metrópole
truculenta e assassina

adornam lagos e rios
com pontes inúteis
e caminhos fúteis
deixando de ser

percebem, enfim,
que nada mais os afeta
seja o silêncio
ou a palavra que execrada

tudo é questão de amperagem
ou gerarão força motriz
e perdendo-se em intensidade
ou serão graxa de engrenagem.

quarta-feira, março 26, 2008



balada da mulher cansada


manhãs douradas
que não suportam
o peso dos ombros
de uma proletária
da fábrica e dos amantes

a escrava da balança
a herdeira da pobreza
sem força para ser bela

solitária
entre o caos concreto
e coágulos de vida

não alimenta o céu
nem amamenta
e acalanta o dia
dorme no metrô

mas não lembra dos sonhos.



(fotografia e poema de minha autoria protegidos pela lei de direitos autorais)

sábado, março 22, 2008




hoje é o dia
de minha libertação

deixo as letras
cansei de me explicar
aplacada
por minhas incertezas
e meus signos tortos

cravo-me no silêncio
visceral

não há palavra
só há insatisfação
não há realidade
apenas interpretação.

(imagem e escrito protegidos pela lei de direitos autorais)