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sexta-feira, outubro 10, 2008





















digam-me onde há glória!
quero Glória, em pires
ou dentro de latinhas
de cerveja
para consumo imediato
ela me enlouquece
embriaga e engana
fode-me por ter
credibilidade

depois do Katrina
ou que nome tenha
o furacão-menina
seja na janela
ou na latrina
o cuspe, o vômito
e o gozo renovam-me

e se existe glória nesse mundo
quero-a assim, com nome de mulher
quero foder Glória!
e toda sua história
mentirosa e infame
com sotaque de redenção
e acompanhem-me os coros de
“Glória, glória, aleluia
glória, glória, aleluia!”

domingo, outubro 05, 2008

é aborto de verso e de filho

é aborto de verso e de filho
é sangue de plástico
e de paixão

é saco plástico
e coronária

papel e carne
presos na palavra
de verso concreto
de tijolo e pedra

é veia e intento
presos no útero vago
de uma prenhes
finda.

sexta-feira, setembro 05, 2008



recado público

quando redefinir teus poros
catalogar fracassos
tentativas frustradas
vômitos vazios
por falta de fome

e enfim assumir
o beijo seco e parco
pela gula que tinha-me

procura-me nos classificados
de domingo!
é lá que publico
erroneamente, meus olhares
desprezados

encontre artigos por meu nome:
Diva Etérea Estéril Doidivanas e tua.

quinta-feira, setembro 04, 2008

vinho versus tinta


vinho versus tinta

se tivesse ao menos uma razão
confrontaríamos os versos
a reboque

nessa noite sem lua
que te fará
parto inválido
na querência do fundo

talvez fosse de um sorriso
a dor que nascera sem par
e etílico vicio
a tensão lacerante

confesso-te inconstante
que amei-te
por míseros trinta minutos

e agora que defunto
talvez use essa ida
pra causar mais
alguma ferida

debaixo de meu seio
a morte impera
nas coronárias do ser
que quase viveu intacto
e não sobreviveu

vinho tinto versus tinta
tintos versos.

segunda-feira, julho 28, 2008



galope

alforriado
cavalguei o tempo
sentindo o vento
da ignorância no rosto
infantil

já não sou inocente
e não acredito em liberdade.

terça-feira, maio 20, 2008




as ampulhetas têm furos
por onde vazam
grãos finos de areia
qualquer hora,
terei que revirar

em algum momento
estarei vazia de mim
e cheia desse nada que consome
animas humanas

é como me sinto
um embuste dentro
de tantos outros
sou ampulheta de vidro
olham-me e não me vêem.

domingo, maio 04, 2008

acendo cigarros para
vê-los queimar
deixei de me avisar
dos perigos que rodeiam
os que não oram

sou ateu e pagão

e esse muro enorme
é duro e discreto
e seus tijolos vermelhos
só servirão
todos de arrimo
para chocar-me com eles
até virar concreto.

quarta-feira, abril 30, 2008

íntimado

(para meu íntimo amado)

toma-a íntimo
por não ter
a dor de amador
ah, meu!
ah, tão teu!
que não toma
o id que me doma
a dor que me toma
ama-a
meu íntimo amado
íntima dor!

domingo, abril 27, 2008

já que os silêncios
aprofundaram-te a fala
que jaz, introspectiva
rogo que consiga eu me calar

pois não há por que de escrita
se não há ninguém para
interpretar

agasalha-te nesse ostracismo
forte e vicioso
que é ele que cabe
aos fortes de espírito
e sedentos de saber

fura esse engano torpe
que ilude os tímpanos
e alivia as dores

devassa as incondições
humanas
de enfrentamento da dor
e cataloga as incertezas
que habitam em tuas retinas

quem sabe daqui há dois mil
anos luz
descubram
Homo Sapiens sentimental
e comovam-se pois não passaria
de um homem-de-neandertal.

quinta-feira, abril 17, 2008





“O homem não é a soma do que tem, mas a totalidade do que ainda não tem, do que poderia ter.” - Jean-Paul Sartre

autodestruição

desejei o submundo
o cais do porto
a maresia que guarda tudo
o cheiro da morte

faltou-me o nome
sobrenome, pão
memória e costela
e ainda quis o desterro

destruí minha retórica
remoí minhas vísceras
e servi no jantar
com vinho barato

venéreo, contaminei algumas
virgens astutas
doces prostitutas
e carolas malamadas

desfolhei cadernos
anotações rasas
versos nulos
para amores vãos

e só tenho o que não quero
palavras falhas
mãos calejadas
e pensamentos execráveis

a vaga lembrança
que resplandeci
talvez amei, não sei,
já faz tanto tempo

antagônico aos desejos bobos
quereres utópicos, ouro dos tolos
almejei apenas ser sozinho
e não sou.