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terça-feira, novembro 03, 2009

ilusões de óptica














as taças da bebida verde
dizem que é fogo
os basculantes avessos
falam em vômitos
os homens juram que é sexo
e as moças sonham que é amor

digo que é fumaça

a bebedeira engana
a náusea repele
a jura mente
os sonhos pervertem
a fumaça disfarça

e na bruma
entre espelhos embaçados
seres descolorados procriam
sorrisos desbotados
dispostos em janelas cinzas
voltadas para mundos de chaminés.

sábado, outubro 03, 2009

rotina



nesses dias
confinada aos cigarros
e à solidão acompanhada
não choro
nem me queixo
apenas deixo
meus sonhos
confinados nas pílulas
dispostas nas gavetas
centrais de meus armários
imaginários
fartos de esperar.

quinta-feira, setembro 03, 2009

diálogos com mortos






















fala morta!
solta a gramática
nos palcos
que embalaram-te em vida

viaja em tua barca do inferno
rumo ao purgatório
ou envolta-te de redenção

que nas alegorias lisboetas
das obras de Gil Vicente
que tanto encenaste
gritam velhas e ninfetas
à procura de teus olhos castanhos

absoluta em tua glória
fala, Cacilda Becker!
que não ousaria definir-te.

segunda-feira, agosto 03, 2009


antes que digam-me
que o erro é amar
rechaço com liturgia
que me falta

quem há de merecer
mais o céu que as putas?

elas subordinam-se
ao segundo mandamento
como ninguém.

sexta-feira, julho 03, 2009

sobre o medo de chorar















odeiam que misture primeira
e terceira pessoas
mas é vício, isso é sexo, baby

porque chorar gotas de tinta
e sentir a garganta fechar
ao cheirar flores mortas?

já não há concretismo aqui
e onde habitava uma atéia
há hoje uma etérea
não sabe deixar ninguém esperar?

espero, desfacelo-me,
sufoco
e ainda guardo
lágrimas de Pollock.

quarta-feira, junho 03, 2009

canto






















abri os olhos no canto
na sombra estrangulada
e com o rosto encoberto
pelas mãos não oro

as sombras dançam
pelas frestas do desconhecido
máquinas modernas contrastam
com medos ancestrais

o móbile do berço gira
como ponteiros que rogam
pelas portas doutro dia
sem amanhã

as pragas tomam o real
demônios não fogem mais
e meu filho único chora
esqueci as cantigas de ninar.

domingo, maio 03, 2009

















a chama da aparição
ainda queimava
e a pele rubra
lambia-me

ventre e existência
em farrapos

a fumaça atravessava-me
feito besta-fera
galopava em olhos
vidrados que refletiam
a carga do fenecer e vagar

na leveza da dor flutuava
pálpebra, olho e caos.

sábado, março 14, 2009



enquanto nervosos corpos
sedentos mal saciam-se

línguas infectadas
de candidíase
e de espórios alheios
vingam-se em
sífilis
gonorréias
cancros moles
e herpes

que das vontades venéreas
não sobram nem a culpa
de serem transmissíveis.

terça-feira, março 03, 2009

sobre chá e colheres

deslumbrado com a passividade
com gravidade do aroma
com a pureza da água
na febre de folhas e flores mortas

o chá esfria

desinteressado do universo
ou do verso paralelo
não cabe nos dias
ou tão pouco se ilude em horas

o chá esfria

diluído em xícara
surrado por colheres
da direita para esquerda
decanta visceral

são cinco horas
e está tudo bem.

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

Musicaram poema meu!

antes chorar
definhar-me em rosários
e hóstias bestiais
de meus pensamentos impuros
em ti

mas não há lágrima
há fúria e desencanto
rasgo-me em devassidão torpe
e condeno-me à loucura inerte
aqui

sorrio como Salomé
debochada e despudorada
enquanto o largo das apnéias
teimam em tirar-me
o ar

respiro-te
inspira-me
tão distantes
tão entregues
sós.



http://www.youtube.com/watch?v=jjmOTlfrZ6Qhttp://www.youtube.com/watch?v=ffbdW1IDd8Y
http://www.youtube.com/watch?v=F4Z5g9lD9cY