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quinta-feira, maio 20, 2010

um poema para seus olhos






















presa entre seus azuis
melodramáticos
meus mares se calam
falta me ar
perco o ártico

herói fadado ao tempo
meu sonho de menina
não se apagou.



(para Jeff Fahey)

sábado, maio 08, 2010

conjunção
























aqui invariável
seio farpado
regaço de venta

segunda-feira, maio 03, 2010
























do sexo binário
ao complexo signo irrelevante da palavra
poderiam afirmar que “só o amor constrói”

das disputas seminais
ao fecundar de um óvulo maduro
poderiam afirmar que “só os mais fortes vencem”

da gonorréia venérea
à verborréia cíclica dos signos e afluentes
afirma Rita Lee que “sexo é animal, amor é bossa nova”

sou fruto de duas forças, Zeus me gerou e uma ninfa me concebeu
sou desavisado espermatozóide vencedor, perdido em nevralgias
antes não ter corrido, antes o cancro perdedor ao som de Sex Pistols!

quarta-feira, março 03, 2010

nacituro






















o enfermiço traz a sintonia
dos que praguejam
com lucidez redobrada
não consegue mais dormir

aprende e sonha
e pouco mais resta
ao ser o abortado
rejeitado e extirpado

a metrópole podre ferve
adoece de suas crias
e promove a queima breve
dos que invejam solenes

efêmero ser encerra
sua pequena tarefa
não arrota desaforos
apenas exala o cheiro
do caos metropolitano.

sobre o medo de chorar















odeiam que misture primeira
e terceira pessoas
mas é vício, isso é sexo, baby

porque chorar gotas de tinta
e sentir a garganta fechar
ao cheirar flores mortas?

já não há concretismo aqui
e onde habitava uma atéia
há hoje uma etérea
não sabe deixar ninguém esperar?

espero, desfacelo-me,
sufoco
e ainda guardo
lágrimas de Pollock.

terça-feira, março 02, 2010

equilibro-me entre o abismo e o caos de teu rosto

















no abismo, sóis infinitos
lembram-me que sou noites em claro
passantes apressados
pisam sobre minha aparente calma
edifícios altos
e vazios imensos
apontam-me quem sou
sons distorcidos
destoam de mim
estou palavra cheia

em teu rosto
não basto-me
nem em tuas sombras infinitivas
e pálpebra intuitiva
caída no regalo de meu ser
talvez por definir-me
tão crua e improdutiva
quem sabe seja
em minha ânsia
por querer demais.

(imagem de minha autoria)

quarta-feira, fevereiro 03, 2010

goteira

















escorreguei gotejando feito
chuva nas pedras do incompreendido
vãos entremeios do ignorar

há cura para o cansaço
é o sussurro seu no meu ouvido
é a mentira que me conta

já não corro da chuva, da nuvem cinza
nem da esperança que me cega
ainda tenho olhos esbugalhados

eles passam entre seus dedos
como as contas do rosário
de minha avó em devoção

lembro-me ainda do choro
de meu reflexo no seu olho
conjugações não me emocionam
só as gotas

distante me faz ler poesias
e tento reescrevê-las num ato falho
as lágrimas amargas falham em face vazia

jamais tentei o distanciamento
e até orei meu abismo aos bárbaros
que caçoaram de mim

e se consegue ver-me em seus olhos
fure-os na ira da gota
não estou pronta para nós.

quinta-feira, dezembro 03, 2009

náufrago


















descartei a velha bússola
e fecho o olho do norte
não há coisa alguma
que eu possa controlar

as realidades pudicas
já não fazem parte desse paladar
esqueci apenas da face sul
do beco da morte

quando erro o caminho
ainda brinco por lá
gosto do som das garrafas
do deboche da boêmia

asfaltei meus dedos de atirador
tentei sepultar a verve assassina
mas não soube trocar de identidade
nem zerar a ampulheta maldita
guardada no bolso de trás

sigo a sintonia das marés
mas elas mal sabem de mim
pago o preço por não ter mapas
viajar sem destino
é assumir-me desconhecido.

terça-feira, novembro 03, 2009

ilusões de óptica














as taças da bebida verde
dizem que é fogo
os basculantes avessos
falam em vômitos
os homens juram que é sexo
e as moças sonham que é amor

digo que é fumaça

a bebedeira engana
a náusea repele
a jura mente
os sonhos pervertem
a fumaça disfarça

e na bruma
entre espelhos embaçados
seres descolorados procriam
sorrisos desbotados
dispostos em janelas cinzas
voltadas para mundos de chaminés.

sábado, outubro 03, 2009

rotina



nesses dias
confinada aos cigarros
e à solidão acompanhada
não choro
nem me queixo
apenas deixo
meus sonhos
confinados nas pílulas
dispostas nas gavetas
centrais de meus armários
imaginários
fartos de esperar.