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domingo, janeiro 02, 2011

subentendido
























doeu, eu sei, mas isso é ter força
doe esse intento feito tinta
em tela nova
deixa pra pensar
amanhã pela manhã

vem povoar meus pensamentos
correndo o risco de ser abstrato
que amores anteriores foram
os atuais são
e os futuros virão

deixa a vida seguir seu rumo
não tem mais sentido o passado
vem que as coisas urgem
e estar livre é apelo antigo
para um presente que nos tem.

quarta-feira, dezembro 29, 2010

dorme,



















e quando acorda nada diz
enquanto ela veste o manto negro
e sai

desce as escadas
sem olhar pra trás
tomada de algo novo
quase nocivo

rememora o caminho
de volta e ignora
a Constante Ramos
com a Barata Ribeiro

esquece suas unhas carmim
que defloraram o úbere
e as horas insones
sobre o dorso dele

dorme,
que foi só um sonho bom
e ela só levou-te a pele
sob suas unhas
e deixou gozo sobre seus ais

a mulher adormece deusa
e acorda puta
cata suas sombras
disformes, inodoras
e some

dorme,
e quando acorda nada diz
enquanto ele se cala sob o negro
e vai.

segunda-feira, dezembro 20, 2010

quase tudo


















afirma o tantra
o quase nos acalanta
que de tentar mudo
o silêncio canta

que mesmo infindo
sentimento segue calado
há o porvir da letra
do ínfimo legado

segunda-feira, novembro 29, 2010

goteira
























escorreguei gotejando feito
chuva nas pedras do incompreendido
vãos entremeios do ignorar

há cura para o cansaço
é o sussurro seu no meu ouvido
é a mentira que me conta

já não corro da chuva, da nuvem cinza
nem da esperança que me cega
ainda tenho olhos esbugalhados

eles passam entre seus dedos
como as contas do rosário
de minha avó em devoção

lembro-me ainda do choro
de meu reflexo no seu olho
conjugações não me emocionam
só as gotas

distante me faz ler poesias
e tento reescrevê-las num ato falho
as lágrimas amargas falham em face vazia

jamais tentei o distanciamento
e até orei meu abismo aos bárbaros
que caçoaram de mim

e se consegue ver-me em seus olhos
fure-os na ira da gota
não estou pronta para nós.

sábado, novembro 20, 2010

entardecer na ponte






















o terceiro arco
a guardar a dúvida
do que mais seria
noutro marco
noutra Brasília

sem cantar paineiras
nessa secura ortodoxa
sem ter porvir úmido
ou esperança que algo mude
transmutamos monumento

presos no calo mentiroso
que ele ostenta para
ocultar a verdade que grita:
meu amor não é meu
nunca foi

a tarde poderia insistir
mas ela devagar anoitou
e arcos um sobre outro
em olhos paranoados
entregaram-se mancos

e a ponte JK é o limiar
desses silêncios
traz a pulsação alterada
do sim que neguei
e do tempo que ele não tem.

sexta-feira, outubro 29, 2010
















nada faz calendários breves
ou queima os anos
como pavio de vela inútil

uma overdose
cheirada sobre
o santo sudário
nos dias, nas horas
de calvário
um pulo, um mergulho
talvez um atalho de terra batida
ao lado da estrada asfaltada

até as bulas de remédio
prometem
o que já não podem cumprir
apaziguar dores
salvar-me da mudez de sentido
da falta de sinônimos
para sofrimentos surdos.

quarta-feira, outubro 20, 2010

corrupta























aceita interpretações
acata mitos
desbrava linhas
subverte as certezas

delibera intenções
mal obedece ritos
ela não é minha
e traz suas vilezas.

quarta-feira, setembro 29, 2010

amanhece,

















em marina, em solo
de cabelos negros
sorriso de menino
chega-me e vá embora

deixe,
tudo está em calma
o mar em ti flutua
o sol em mim atua
um misto de solidão
e cura

deixa,
que amor é o melhor
é bem e o mal maior
que nos atinge em fúria
na luta de história sã.

terça-feira, setembro 21, 2010

somos




















a dança do caminhante com o alado
a mistura do amargo com mel
o cruzar do perfeito com o manco
a luta do lápis com o papel
do preto com o branco
do silêncio com o falado
do livre com o rimado

somos apenas o traçado



(fotografia de minha autoria)

segunda-feira, setembro 20, 2010

interpoética
























a palavra reles meretriz
na boca de meu poeta fugaz
apodrece e me faz
desejá-lo ainda mais

não preciso de matiz
se nas nuances disformes me faz feliz
e em sua língua
rouca suspensa me traz

se o poema sozinho se diz
e nem todo verso apraz
seu verbo me é cicatriz
e todo resto jaz.