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sábado, outubro 15, 2011

estrangeiro






















que dizer a esse homem que amo
e que desconheço
que não beba de minha essência
que não leve meus frutos?

que me tome, estrangeiro
feito doce escrava
serei pão e vinho
e contenda divina
enquanto me quiser
seios e ancas

desconheço as águas
que o trouxeram, meu amado
mal sabia dos versos
que jaziam em seu traçado

quantas mulheres não importa
furtivas são as portas
os velos de um querer
sem passado
onde não há hora
para um coração tardio

meu amado,
não quero seu país
desejo-lhe estrangeiro
invasor dessas terras
por hora, improdutivas.

domingo, outubro 02, 2011

estágio carmim
























tenta sorrir
e como um objeto
arde agora

pupilas rasgadas de dor
manchas e manchas
sobre o veludo

findo o combate
enfim alcança
o estágio carmim.

quinta-feira, setembro 15, 2011

estátua de sal
























a imagem endurecida
mal chora trancada em si
na esperança de se achar

[calo]
trago aqui
cada palavra
cada respiração
cada som
toda a sensação
rubra, rubra, rubra

[vem]

e que minha retina
te cubra ainda dilatada
e que seus poros
jamais se esqueçam

[garoe]

que teu sorriso
me é bastante
enquanto molha
meu corpo


[vê]

que não há limites
entre o que é nosso
que a loucura é sã
enquanto unos

[sente?]

sexta-feira, setembro 02, 2011

estática

























olhos perdidos
melancólica

pareço ter alma
mas sou oca
tal autêntica obra
de Ron Mueck.

quarta-feira, agosto 17, 2011

Carta para Ortros

























quis o destino dar-te duas cabeças e um só coração
ao fazer isso te fadou a procurar amores racionais
em qualquer balança se equilibrariam teu amor e tua razão
seria perfeito se isso não fosse tão doloroso

ser um cão bicéfalo, com rabo de serpente
e aparência estranha sempre em alerta
pronto para atacar com tuas verdades
não te salvou de si mesmo, nem de teus sentimentos

nada conseguiu evitar que trouxesse tuas verdades
como mantos de proteção e pureza
como estandarte e brasão de guerreiros
que são avaliados pela honra de espírito e força de luta

de onde venho tuas verdades valem muito pouco
no máximo comprariam vários inimigos
e contas de olhos malfeitores e línguas maledicentes
nasci no meio de invencionices crônicas
numa terra onde só vale a mentira
e as representações grotescas da verdade
nada fácil de equilibrar

olho para teu irmão, Cérbero, o cão de três faces,
aquele com três pares de olhos e orelhas
e com três mordeduras à mostra, prontas para destroçar
qualquer coisa que venha contra suas regras
só aquele cão que guardava Hades
estava pronto para o mundo

e ali, em Eritéia, bem longe dos portões do inferno
fora domado e domesticado por Gerião
um agricultor que te fez pacífico vigia de rebanhos

Hércules, em seu décimo trabalho, ao golpear-te mortalmente
mal supunha quão grande e sensível era seu coração
se o soubesse, não ousaria destroçar o brilho de tua pulsante alma
que ascendeu aos céus como Sírius a contar histórias

a mais bela e brilhante estrela do céu noturno

e ao descobrir-te tão intenso e verdadeiro
naquele céu onde cometas se travestiam de estrelas
onde corpos celestes embusteiros se jogavam
desaprendi a dividir olhares e choro

naquela noite descobri quão pobre seria meu destino
uma pobre Sherazade a contar histórias sem fim
numa dessas mil e uma noites.


(resposta para Carta para Úrano, de Wile Ortros:
http://wileortros.blogspot.com/2011/08/carta-para-urano.html )

segunda-feira, agosto 15, 2011

arauto





















navegaria
através de tempestades
se não fosse tão incrédula
e presa a esse tempo

se o fizesse
por ti, meu amado
minha nau não
teria porto algum

o oceano me levaria
a vastas latitudes
e me esqueceria
das longitudes

sem bússola me perderia
na imensidão do caos
e a arrebentação
me enganaria

as âncoras
seriam içadas
só no fim

náufragas as palavras
só fariam par
com as pedras
e algas no fundo
do mar

ali sim,
o mais belo silêncio
e o vazio igual a espera
desse momento
nós.

terça-feira, agosto 02, 2011

Indomável






















Minha alma transpirava estrelas
Procurei, mas não pude vê-las,
Estava de olhos fechados a te sentir
Ainda sim podia senti-lo sorrir
Dentro de mim.
Um vulgo jardim se formava
Enquanto estava despetalada
Em teu leito ferido
Indomável
Como uma onda de luxúria
Como um vulcão entre minhas pernas
Como um vendaval de sentidos
Enchia-me teu negro noturno
E com astros luminosos
Imperadores, incandescentes,
Que nos faziam átomos
Na conjugação de verbos imperfeitos.

terça-feira, julho 05, 2011

paramare






















batizei telas, cores, vielas
com seu nome
vinhos, sambas, beijos
com seu sobrenome

jamais quis tanto alguém
esta é a canção
única que compus
paramare pelo mundo afora

e as nuvens, pobrezinhas
seguem sufocando
por serem inconstantes
breves bocejos

eu culpo esta cidade
as pedras surdas
e seu excesso de
palma e prego

enfim estou de volta
inteira como fui
como não deixaria
de ser, não nego
dias e noites paramare.

sábado, julho 02, 2011

fêmea fértil
























suas palavras me são gametas
copulam impunes
em minhas orelhas
sob a trama negra de nossos pelos

revida silêncio com substantivos
versos ferinos e doces apelos
quando me calo se vinga
beijando-me até que eu derreta

aqui quase ávida meio faminta
sinto-o deitado sob minha centelha
enfim, deixa-me só em gozo altivo
cheia de sêmen
grávida de sua língua

domingo, junho 05, 2011

a conta exata























nem olhe para trás
vá, meu amor
tanto faz
se o que me move
é apenas o lastro
o andar de fasto
voltar ao passado
um tempo que não vingou

esse céu já não me serve
nem de sol, nem de abrigo
então já não fique
nem me arraste contigo

tantos rumores
gritam desgovernados
contando como novo
aquilo que bem sei:
"acabou, acabou,
acabou".

e se ainda se importa
com meus passos
saiba que aqui
tenho pedaços
de tudo que se passou

a vida segue
e ganhando ainda
se perde
aquilo que mais amou
vá e não chora
apenas ignora
todo sonho que um dia
nos pertenceu