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quarta-feira, janeiro 04, 2012

somos anas





















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faíscas

anas

franciscas

malícias

bem

mal

e fictícias.

quinta-feira, dezembro 15, 2011

de seda
























quem dera tivesse acabado ali
quem dera tivesse acabado

hoje, caminho só pela vida
e os olhos todos me pedem
em vão e seguem destruindo
asfaltando estradas em sonhos
trincheirando suas
entradas sobre mim

sem lirismos nos passos
corro até onde o cansaço do céu
encontrar o voo do abismo

compartilho lembranças ruins
com aqueles que roubaram
meu vestido mais-que-perfeito
e devassaram entranhas do porvir
mal sabem que não tenho motivos

mas trago um sorriso secreto
entre meus seios
que não se olham
que não dizem nada
nada além que o antepasto
do meu desespero

deveria ter acabado ali.

sexta-feira, dezembro 02, 2011

irrelevante


















é uma revolta concreta
uma dor ereta
que penetra, estupra

um vômito atônico
no mar de incertezas
reviro-me em poesia

uma batalha perdida
cada luta um verso
vencido, atônico

um atar de nós que não fiz
em distâncias que não percorri
de caminhos que desconheço

mas nem assim, cresço
quanto mais sou
menos me reconheço


vago em cantos
que não sou meus
utópicos, impróprios


sou gozo em primeira pessoa
do plural
calado, inválido.

terça-feira, novembro 15, 2011

corpo celeste























como astro de luz que teima
ascende por onde é frio
atreve-se desconhecido
recolhe ânsias alheias
em castelos bélicos
em cinzas que evaporam
porque veio para ser livre

e como um cometa
rasga os céus
de fevereiro a fevereiro
deixando-se feito rasto
reluz sêmen da vontade
e não cessa, brilha

não era para ser
não era
a vida é de nunca
acostumei-me com dores
elas me fazem companhia

há períodos que me vem
nem raio de luz
nem trovão
de meia estação

hospeda-se completo
entre amplexo e átrio
e feito milagre ateu
faz manhãs cantarem
dentro de um peito calado

o meu.

quarta-feira, novembro 02, 2011

apartheid
















ele seguirá meus passos
nessas ruínas sitiadas
onde quer que eu vá
nessa cidade de pedras


vazio e esgotado
nesse tempo lento
de um abraço ausente
suportará a desordem

sem sucumbir ao caos
as ideias sempre vêm
tarde demais
meu anjo espreita

sua imagem acalenta-me
sua voz me acalma
e seguirei meus sentidos
sem sentir meu coração.

sábado, outubro 15, 2011

estrangeiro






















que dizer a esse homem que amo
e que desconheço
que não beba de minha essência
que não leve meus frutos?

que me tome, estrangeiro
feito doce escrava
serei pão e vinho
e contenda divina
enquanto me quiser
seios e ancas

desconheço as águas
que o trouxeram, meu amado
mal sabia dos versos
que jaziam em seu traçado

quantas mulheres não importa
furtivas são as portas
os velos de um querer
sem passado
onde não há hora
para um coração tardio

meu amado,
não quero seu país
desejo-lhe estrangeiro
invasor dessas terras
por hora, improdutivas.

domingo, outubro 02, 2011

estágio carmim
























tenta sorrir
e como um objeto
arde agora

pupilas rasgadas de dor
manchas e manchas
sobre o veludo

findo o combate
enfim alcança
o estágio carmim.

quinta-feira, setembro 15, 2011

estátua de sal
























a imagem endurecida
mal chora trancada em si
na esperança de se achar

[calo]
trago aqui
cada palavra
cada respiração
cada som
toda a sensação
rubra, rubra, rubra

[vem]

e que minha retina
te cubra ainda dilatada
e que seus poros
jamais se esqueçam

[garoe]

que teu sorriso
me é bastante
enquanto molha
meu corpo


[vê]

que não há limites
entre o que é nosso
que a loucura é sã
enquanto unos

[sente?]

sexta-feira, setembro 02, 2011

estática

























olhos perdidos
melancólica

pareço ter alma
mas sou oca
tal autêntica obra
de Ron Mueck.

quarta-feira, agosto 17, 2011

Carta para Ortros

























quis o destino dar-te duas cabeças e um só coração
ao fazer isso te fadou a procurar amores racionais
em qualquer balança se equilibrariam teu amor e tua razão
seria perfeito se isso não fosse tão doloroso

ser um cão bicéfalo, com rabo de serpente
e aparência estranha sempre em alerta
pronto para atacar com tuas verdades
não te salvou de si mesmo, nem de teus sentimentos

nada conseguiu evitar que trouxesse tuas verdades
como mantos de proteção e pureza
como estandarte e brasão de guerreiros
que são avaliados pela honra de espírito e força de luta

de onde venho tuas verdades valem muito pouco
no máximo comprariam vários inimigos
e contas de olhos malfeitores e línguas maledicentes
nasci no meio de invencionices crônicas
numa terra onde só vale a mentira
e as representações grotescas da verdade
nada fácil de equilibrar

olho para teu irmão, Cérbero, o cão de três faces,
aquele com três pares de olhos e orelhas
e com três mordeduras à mostra, prontas para destroçar
qualquer coisa que venha contra suas regras
só aquele cão que guardava Hades
estava pronto para o mundo

e ali, em Eritéia, bem longe dos portões do inferno
fora domado e domesticado por Gerião
um agricultor que te fez pacífico vigia de rebanhos

Hércules, em seu décimo trabalho, ao golpear-te mortalmente
mal supunha quão grande e sensível era seu coração
se o soubesse, não ousaria destroçar o brilho de tua pulsante alma
que ascendeu aos céus como Sírius a contar histórias

a mais bela e brilhante estrela do céu noturno

e ao descobrir-te tão intenso e verdadeiro
naquele céu onde cometas se travestiam de estrelas
onde corpos celestes embusteiros se jogavam
desaprendi a dividir olhares e choro

naquela noite descobri quão pobre seria meu destino
uma pobre Sherazade a contar histórias sem fim
numa dessas mil e uma noites.


(resposta para Carta para Úrano, de Wile Ortros:
http://wileortros.blogspot.com/2011/08/carta-para-urano.html )