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segunda-feira, junho 04, 2012

a folha

























vê como é livre a folha

que vai e vem

sem se prender

sem temer a voar

é a música do perder

e vai e desaparece

rodopia e reaparece

como uma contradança

entra em parafuso

e some e se vê

sabe bem dos sussurros

que o ar dá ao lhe levar

e a tola roda, roda

olhe a folha cansada

que se entrega a sorrir

sem se preocupar

com o que é

oh, pobre folha

que se atreve a voar

com a força do vento

e se contamina com

essa onda quente do vento

e está tão entregue

que já nem é

sexta-feira, maio 04, 2012

Que venha o homem




















Com suas pernas finas

Como se soubesse o que é ser

Que venha também

A mulher

Como se soubesse o que quer

Que venham todos os bichos

Em roupinhas de algodão

Seus brinquedos

Seu torrão

Com suas lanças pontudas

E dentes cariados

Venham os banguelas

Que nem servem para mascar

Com suas vidinhas toscas

Suas jóias foscas

Seus dizeres de poder,

Santa ignorância.

Como ter o que não conhece?

Por que acreditar no que não vê?

Dançam em torno de sua fogueira

Fazem sua guerra

Lavram sua terra

E perpetuam sua prole

Não têm mais o que fazer.

quarta-feira, abril 04, 2012

Veio

























Veio e construiu teus castelos de areia,

Num império eólico

Ao soprar de cada brisa

Teus sonhos cediam

E o sofrimento condensava-se

Até que se devotou

Ao desespero,

À descrença...

Tudo ruiu,

Tudo caiu...

Mas nem assim quis lutar

Seus latifúndios

Eram areia e sonhos

E o mundo te dava

O vento.

domingo, março 04, 2012

Seus ouvidos polidos





















Não querem meus adjetivos chulos

Suportam apenas as belezas bucólicas

Já eu tenho náuseas,

Cólicas insanas,

Palavras vis e profanas

Que revelam a escanção humana,

A deterioração mundana

Que arrasam minha essência,

Desconheço o amor

Por jamais tê-lo ganho

Conheço a falta dele,

A realidade escalpelante

Que rasga e fere

O que ainda me resta,

E só tenho minha retórica

Não quero sua opinião.

Poema para Ana Cristina César





















Meus dentes rangem

Minha gordura ferve

A garganta supita

Não tenho mais dor.

Meus pulsos tangem

Vertendo o suco

Que ainda posso ter

Estou fora de mim.

Meu corpo cai

duma janela

sétimo andar

sem nada explicar.

Quero ser um poema

E flutuar em seu colo

Viver para quê?

Padecer como ela

Fio da navalha

Numa língua de trapo

Tantas lembranças

Tantas vertigens.

Acalanto em mim

Um segredo infinito

Rabiscado nos papéis de cheiro

Que um dia minha mão tocou.

E perfumadas ainda,

Elas se vão

Vãs, inertes

Pousadas em meu desespero.

quarta-feira, janeiro 04, 2012

somos anas





















iscas

faíscas

anas

franciscas

malícias

bem

mal

e fictícias.

quinta-feira, dezembro 15, 2011

de seda
























quem dera tivesse acabado ali
quem dera tivesse acabado

hoje, caminho só pela vida
e os olhos todos me pedem
em vão e seguem destruindo
asfaltando estradas em sonhos
trincheirando suas
entradas sobre mim

sem lirismos nos passos
corro até onde o cansaço do céu
encontrar o voo do abismo

compartilho lembranças ruins
com aqueles que roubaram
meu vestido mais-que-perfeito
e devassaram entranhas do porvir
mal sabem que não tenho motivos

mas trago um sorriso secreto
entre meus seios
que não se olham
que não dizem nada
nada além que o antepasto
do meu desespero

deveria ter acabado ali.

sexta-feira, dezembro 02, 2011

irrelevante


















é uma revolta concreta
uma dor ereta
que penetra, estupra

um vômito atônico
no mar de incertezas
reviro-me em poesia

uma batalha perdida
cada luta um verso
vencido, atônico

um atar de nós que não fiz
em distâncias que não percorri
de caminhos que desconheço

mas nem assim, cresço
quanto mais sou
menos me reconheço


vago em cantos
que não sou meus
utópicos, impróprios


sou gozo em primeira pessoa
do plural
calado, inválido.

terça-feira, novembro 15, 2011

corpo celeste























como astro de luz que teima
ascende por onde é frio
atreve-se desconhecido
recolhe ânsias alheias
em castelos bélicos
em cinzas que evaporam
porque veio para ser livre

e como um cometa
rasga os céus
de fevereiro a fevereiro
deixando-se feito rasto
reluz sêmen da vontade
e não cessa, brilha

não era para ser
não era
a vida é de nunca
acostumei-me com dores
elas me fazem companhia

há períodos que me vem
nem raio de luz
nem trovão
de meia estação

hospeda-se completo
entre amplexo e átrio
e feito milagre ateu
faz manhãs cantarem
dentro de um peito calado

o meu.

quarta-feira, novembro 02, 2011

apartheid
















ele seguirá meus passos
nessas ruínas sitiadas
onde quer que eu vá
nessa cidade de pedras


vazio e esgotado
nesse tempo lento
de um abraço ausente
suportará a desordem

sem sucumbir ao caos
as ideias sempre vêm
tarde demais
meu anjo espreita

sua imagem acalenta-me
sua voz me acalma
e seguirei meus sentidos
sem sentir meu coração.