
que envolve minhas viscosidades
e preconiza a força de um ser em ebulição
quero gritar, e me calo
a palavra que me salvou de mim mesma
tomou-me a fala
consumiu-me em cada letra
quero-te leitmotiv
não tenho mais poesia.
não há uma só vírgula que não seja ilusão

que envolve minhas viscosidades
e preconiza a força de um ser em ebulição
quero gritar, e me calo
a palavra que me salvou de mim mesma
tomou-me a fala
consumiu-me em cada letra
quero-te leitmotiv
não tenho mais poesia.

das expiações
que me submeteu
nada me importa mais
esperei meses por sua boca
e seu calar me traiu
ri e zomba de mim
não me preserva mais
dos infinitivos que amei
restou-me o pretérito
conjugado em meu peito
suas mãos
sua ausência e desprezo
me desgovernam
dos milhares de nãos
há ainda seu cheiro
que mal me libertei
é em mim
silêncio, dúvida
amor e caos

habito os seus anseios torpes
e te levo comigo à viagens libertárias
talvez ouça-me em teu miocárdio
e extasie-se de ausências
ao me confrontar
mas sou nula e completa
substantivo feminino
singular
morte.


suas mãos passeavam dentro do saco se papel
cheio de sementes negras que mais pareciam
bolinhas miúdas ou pequenos ovos de inseto
e elas esvaiam-se entre os dedos feito tempo
jogava ao solo aqueles pontinhos pretos
como se fossem pontos finais
esperando milhões e milhões
de minúsculos recomeços
e sob visões de pupilas dilatadas
aquela criatura caminhava em campo aberto
o vento arrastava suas saias e ela se divertia
como uma besta fera sorria estridente
seus pés avermelhados pela terra
afundavam no morno que o sol deixava
e a vida dentro da própria vida era surreal
as sementes eram bombas sobre o chão arado
as mãos devotadas ao prazer despretensioso
do toque daquelas minúsculas cápsulas
refaziam incessantes os movimentos
de captura e liberdade suprema
mal sabiam da colheita.

por esquecer do que trazia
debaixo delas
rodou em seu terreiro
colocou fogo no mundo
vencidos
os olhos fitavam-se
esboçou um sorriso
fitou suas unhas carmim
pele alva
quase transparente
não queria saídas
queria desenrolar fitas
e ali, despida
morna, sem orgulhos breves
urinou-se, banhou-se,
sufocou-se
na tentativa de abrandar os braseiros
e passeou entre
a melancolia e a felicidade
teve vontade de gargalhar
mas não há mais o que escarrar
vestiu seu vestido de chita
e pôs-se a dançar.

vê como é livre a folha
que vai e vem
sem se prender
sem temer a voar
é a música do perder
e vai e desaparece
rodopia e reaparece
como uma contradança
entra em parafuso
e some e se vê
sabe bem dos sussurros
que o ar dá ao lhe levar
e a tola roda, roda
olhe a folha cansada
que se entrega a sorrir
sem se preocupar
com o que é
oh, pobre folha
que se atreve a voar
com a força do vento
e se contamina com
essa onda quente do vento
e está tão entregue
que já nem é

Com suas pernas finas
Como se soubesse o que é ser
Que venha também
A mulher
Como se soubesse o que quer
Que venham todos os bichos
Em roupinhas de algodão
Seus brinquedos
Seu torrão
Com suas lanças pontudas
E dentes cariados
Venham os banguelas
Que nem servem para mascar
Com suas vidinhas toscas
Suas jóias foscas
Seus dizeres de poder,
Santa ignorância.
Como ter o que não conhece?
Por que acreditar no que não vê?
Dançam em torno de sua fogueira
Fazem sua guerra
Lavram sua terra
E perpetuam sua prole
Não têm mais o que fazer.

Veio e construiu teus castelos de areia,
Num império eólico
Ao soprar de cada brisa
Teus sonhos cediam
E o sofrimento condensava-se
Até que se devotou
Ao desespero,
À descrença...
Tudo ruiu,
Tudo caiu...
Mas nem assim quis lutar
Seus latifúndios
Eram areia e sonhos
E o mundo te dava
O vento.

Não querem meus adjetivos chulos
Suportam apenas as belezas bucólicas
Já eu tenho náuseas,
Cólicas insanas,
Palavras vis e profanas
Que revelam a escanção humana,
A deterioração mundana
Que arrasam minha essência,
Desconheço o amor
Por jamais tê-lo ganho
Conheço a falta dele,
A realidade escalpelante
Que rasga e fere
O que ainda me resta,
E só tenho minha retórica
Não quero sua opinião.