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domingo, novembro 04, 2012

rasga em mim inquietude de Pagu

























que envolve minhas viscosidades
e preconiza a força de um ser em ebulição
quero gritar, e me calo
a palavra que me salvou de mim mesma
tomou-me a fala
consumiu-me em cada letra
quero-te leitmotiv
não tenho mais poesia.

quinta-feira, outubro 04, 2012

das mil vezes que morri
















das expiações

que me submeteu
nada me importa mais

esperei meses por sua boca
e seu calar me traiu
ri e zomba de mim
não me preserva mais

dos infinitivos que amei
restou-me o pretérito
conjugado em meu peito

suas mãos

sua ausência e desprezo
me desgovernam

dos milhares de nãos
há ainda seu cheiro
que mal me libertei

é em mim
silêncio, dúvida
amor e caos

terça-feira, setembro 04, 2012

sou soberana do silêncio

























habito os seus anseios torpes

e te levo comigo à viagens libertárias

talvez ouça-me em teu miocárdio

e extasie-se de ausências

ao me confrontar

mas sou nula e completa

substantivo feminino

singular

morte.

quinta-feira, agosto 09, 2012

sereno



















sim, é essa boca que beijou
que desdenha de seus mancos agora
não debulha pequenos milagres
nem lambe mais seus pés para ter paz

não chove nessa noite fresca
e a madrugada segue seca
a lua transborda lá fora
enquanto sangra mais um
entre tantos peitos feridos

sim, as mariposas continuam
buscando sonhos perfeitos na luz
dançam sobre as águas
e morrem afogadas antes
do raiar do dia.

sábado, agosto 04, 2012

a menina que semeava papoulas

























suas mãos passeavam dentro do saco se papel

cheio de sementes negras que mais pareciam

bolinhas miúdas ou pequenos ovos de inseto

e elas esvaiam-se entre os dedos feito tempo

jogava ao solo aqueles pontinhos pretos

como se fossem pontos finais

esperando milhões e milhões

de minúsculos recomeços

e sob visões de pupilas dilatadas

aquela criatura caminhava em campo aberto

o vento arrastava suas saias e ela se divertia

como uma besta fera sorria estridente

seus pés avermelhados pela terra

afundavam no morno que o sol deixava

e a vida dentro da própria vida era surreal

as sementes eram bombas sobre o chão arado

as mãos devotadas ao prazer despretensioso

do toque daquelas minúsculas cápsulas

refaziam incessantes os movimentos

de captura e liberdade suprema

mal sabiam da colheita.

quarta-feira, julho 04, 2012

despiu-se de suas saias negras
























por esquecer do que trazia

debaixo delas

rodou em seu terreiro

colocou fogo no mundo

vencidos

os olhos fitavam-se

esboçou um sorriso

fitou suas unhas carmim

pele alva

quase transparente

não queria saídas

queria desenrolar fitas

e ali, despida

morna, sem orgulhos breves

urinou-se, banhou-se,

sufocou-se

na tentativa de abrandar os braseiros

e passeou entre

a melancolia e a felicidade

teve vontade de gargalhar

mas não há mais o que escarrar

vestiu seu vestido de chita

e pôs-se a dançar.

segunda-feira, junho 04, 2012

a folha

























vê como é livre a folha

que vai e vem

sem se prender

sem temer a voar

é a música do perder

e vai e desaparece

rodopia e reaparece

como uma contradança

entra em parafuso

e some e se vê

sabe bem dos sussurros

que o ar dá ao lhe levar

e a tola roda, roda

olhe a folha cansada

que se entrega a sorrir

sem se preocupar

com o que é

oh, pobre folha

que se atreve a voar

com a força do vento

e se contamina com

essa onda quente do vento

e está tão entregue

que já nem é

sexta-feira, maio 04, 2012

Que venha o homem




















Com suas pernas finas

Como se soubesse o que é ser

Que venha também

A mulher

Como se soubesse o que quer

Que venham todos os bichos

Em roupinhas de algodão

Seus brinquedos

Seu torrão

Com suas lanças pontudas

E dentes cariados

Venham os banguelas

Que nem servem para mascar

Com suas vidinhas toscas

Suas jóias foscas

Seus dizeres de poder,

Santa ignorância.

Como ter o que não conhece?

Por que acreditar no que não vê?

Dançam em torno de sua fogueira

Fazem sua guerra

Lavram sua terra

E perpetuam sua prole

Não têm mais o que fazer.

quarta-feira, abril 04, 2012

Veio

























Veio e construiu teus castelos de areia,

Num império eólico

Ao soprar de cada brisa

Teus sonhos cediam

E o sofrimento condensava-se

Até que se devotou

Ao desespero,

À descrença...

Tudo ruiu,

Tudo caiu...

Mas nem assim quis lutar

Seus latifúndios

Eram areia e sonhos

E o mundo te dava

O vento.

domingo, março 04, 2012

Seus ouvidos polidos





















Não querem meus adjetivos chulos

Suportam apenas as belezas bucólicas

Já eu tenho náuseas,

Cólicas insanas,

Palavras vis e profanas

Que revelam a escanção humana,

A deterioração mundana

Que arrasam minha essência,

Desconheço o amor

Por jamais tê-lo ganho

Conheço a falta dele,

A realidade escalpelante

Que rasga e fere

O que ainda me resta,

E só tenho minha retórica

Não quero sua opinião.