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sexta-feira, fevereiro 15, 2013

corrupta



aceita interpretações
acata mitos
desbrava linhas
subverte as certezas

delibera intenções
mal obedece ritos
ela não é minha
e traz suas vilezas.

quarta-feira, fevereiro 06, 2013

estátua de sal





















a imagem endurecida
mal chora trancada em si
na esperança de se achar

[calo]
trago aqui
cada palavra
cada respiração
cada som
toda a sensação
rubra, rubra, rubra

[vem]

e que minha retina
te cubra ainda dilatada
e que seus poros
jamais se esqueçam

[garoe]

que teu sorriso
me é bastante
enquanto molha
meu corpo


[vê]

que não há limites
entre o que é nosso
que a loucura é sã
enquanto unos

[sente?]

terça-feira, janeiro 15, 2013

abnegação




entendo que tudo sucumbe ao fogo
quem poderá dizer antiga lama
que habita esse corpo
tão nobre linho e rasgada fama
encobre o pecado sem sorte alguma
entregue a homens tortos
de olhos ocos sem fortuna

aceito que tudo sucumbe ao fogo
além do vazio da alma
e do flagelo da carne
o silêncio habita no tutano do osso
trazendo caos e fúria
para quem vivia na calma

entendo que tudo sucumbe ao fogo
vi a salvação em seus olhos mouros
que no vazio inerte lambiam meu riso
roubavam meu couro
silêncio, vício e ócio

em nossa cama
aceito que tudo sucumbe ao fogo
um corpo ferindo outro
pela luxúria de ambos
e ambos se deleitam
tecendo fúria e corte
pelo prazer do escambo





terça-feira, dezembro 04, 2012

cansou-me a repetição de beijos doces























que se fizeram amargos com o tempo

as palavras que percorriam as sombras

e depois faziam sorrir

os louvores da mata

pelo selvagem em mim

o esquecimento

as ondas que abarcaram frias

a escuridão de minha alma turva

deixaram-me só em algum dia bom

e a queda da bastilha

não é mais que solidão

em gota de orvalho

quase dia

feneci diante das dores de cotovelo

de rimas duvidosas de falsos poeteiros...

que posso fazer diante da necrose do verbo?

o prazo de validade dos versos passou

estão perdidos, podres, impróprios para consumo

assumo-me frágil diante da impotência do músculo

da incompreensão poética e das verborragias.

domingo, novembro 04, 2012

rasga em mim inquietude de Pagu

























que envolve minhas viscosidades
e preconiza a força de um ser em ebulição
quero gritar, e me calo
a palavra que me salvou de mim mesma
tomou-me a fala
consumiu-me em cada letra
quero-te leitmotiv
não tenho mais poesia.

quinta-feira, outubro 04, 2012

das mil vezes que morri
















das expiações

que me submeteu
nada me importa mais

esperei meses por sua boca
e seu calar me traiu
ri e zomba de mim
não me preserva mais

dos infinitivos que amei
restou-me o pretérito
conjugado em meu peito

suas mãos

sua ausência e desprezo
me desgovernam

dos milhares de nãos
há ainda seu cheiro
que mal me libertei

é em mim
silêncio, dúvida
amor e caos

terça-feira, setembro 04, 2012

sou soberana do silêncio

























habito os seus anseios torpes

e te levo comigo à viagens libertárias

talvez ouça-me em teu miocárdio

e extasie-se de ausências

ao me confrontar

mas sou nula e completa

substantivo feminino

singular

morte.

quinta-feira, agosto 09, 2012

sereno



















sim, é essa boca que beijou
que desdenha de seus mancos agora
não debulha pequenos milagres
nem lambe mais seus pés para ter paz

não chove nessa noite fresca
e a madrugada segue seca
a lua transborda lá fora
enquanto sangra mais um
entre tantos peitos feridos

sim, as mariposas continuam
buscando sonhos perfeitos na luz
dançam sobre as águas
e morrem afogadas antes
do raiar do dia.

sábado, agosto 04, 2012

a menina que semeava papoulas

























suas mãos passeavam dentro do saco se papel

cheio de sementes negras que mais pareciam

bolinhas miúdas ou pequenos ovos de inseto

e elas esvaiam-se entre os dedos feito tempo

jogava ao solo aqueles pontinhos pretos

como se fossem pontos finais

esperando milhões e milhões

de minúsculos recomeços

e sob visões de pupilas dilatadas

aquela criatura caminhava em campo aberto

o vento arrastava suas saias e ela se divertia

como uma besta fera sorria estridente

seus pés avermelhados pela terra

afundavam no morno que o sol deixava

e a vida dentro da própria vida era surreal

as sementes eram bombas sobre o chão arado

as mãos devotadas ao prazer despretensioso

do toque daquelas minúsculas cápsulas

refaziam incessantes os movimentos

de captura e liberdade suprema

mal sabiam da colheita.

quarta-feira, julho 04, 2012

despiu-se de suas saias negras
























por esquecer do que trazia

debaixo delas

rodou em seu terreiro

colocou fogo no mundo

vencidos

os olhos fitavam-se

esboçou um sorriso

fitou suas unhas carmim

pele alva

quase transparente

não queria saídas

queria desenrolar fitas

e ali, despida

morna, sem orgulhos breves

urinou-se, banhou-se,

sufocou-se

na tentativa de abrandar os braseiros

e passeou entre

a melancolia e a felicidade

teve vontade de gargalhar

mas não há mais o que escarrar

vestiu seu vestido de chita

e pôs-se a dançar.