com voz ocre
e fingir que não ouço
deitada sob seu peito
agudo e só, não me culpe
o silêncio é fardo
das dores que trago
como os golpes
que me infligira
ainda em seu ventre
por não chorar me calo
antes que me estupre.
não há uma só vírgula que não seja ilusão


que se fizeram amargos com o tempo
as palavras que percorriam as sombras
e depois faziam sorrir
os louvores da mata
pelo selvagem em mim
o esquecimento
as ondas que abarcaram frias
a escuridão de minha alma turva
deixaram-me só em algum dia bom
e a queda da bastilha
não é mais que solidão
em gota de orvalho
quase dia
feneci diante das dores de cotovelo
de rimas duvidosas de falsos poeteiros...
que posso fazer diante da necrose do verbo?
o prazo de validade dos versos passou
estão perdidos, podres, impróprios para consumo
assumo-me frágil diante da impotência do músculo
da incompreensão poética e das verborragias.

que envolve minhas viscosidades
e preconiza a força de um ser em ebulição
quero gritar, e me calo
a palavra que me salvou de mim mesma
tomou-me a fala
consumiu-me em cada letra
quero-te leitmotiv
não tenho mais poesia.

das expiações
que me submeteu
nada me importa mais
esperei meses por sua boca
e seu calar me traiu
ri e zomba de mim
não me preserva mais
dos infinitivos que amei
restou-me o pretérito
conjugado em meu peito
suas mãos
sua ausência e desprezo
me desgovernam
dos milhares de nãos
há ainda seu cheiro
que mal me libertei
é em mim
silêncio, dúvida
amor e caos

habito os seus anseios torpes
e te levo comigo à viagens libertárias
talvez ouça-me em teu miocárdio
e extasie-se de ausências
ao me confrontar
mas sou nula e completa
substantivo feminino
singular
morte.


suas mãos passeavam dentro do saco se papel
cheio de sementes negras que mais pareciam
bolinhas miúdas ou pequenos ovos de inseto
e elas esvaiam-se entre os dedos feito tempo
jogava ao solo aqueles pontinhos pretos
como se fossem pontos finais
esperando milhões e milhões
de minúsculos recomeços
e sob visões de pupilas dilatadas
aquela criatura caminhava em campo aberto
o vento arrastava suas saias e ela se divertia
como uma besta fera sorria estridente
seus pés avermelhados pela terra
afundavam no morno que o sol deixava
e a vida dentro da própria vida era surreal
as sementes eram bombas sobre o chão arado
as mãos devotadas ao prazer despretensioso
do toque daquelas minúsculas cápsulas
refaziam incessantes os movimentos
de captura e liberdade suprema
mal sabiam da colheita.