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sábado, abril 11, 2026

o silêncio



não é um quem cala consente
eu não consinto o silêncio
mas me calo
e calada sigo
mesmo quando 
a palavra insiste
eu consinto

não falo e ainda assim
a linha vem
sobre a folha 
e fala
escancarando a dor
da tua decisão

o amor permanece 
ele não madura
não envelhece
e a seu modo fica
silente



(*feliz aniversário, filha)

sábado, março 28, 2026

sou



objeto direto de mim
num corpo quase pretérito
que habitou o perfeito
fui

sou o habitat natural dessa alma
vaga e de anseios torpes
e te levo comigo às minha
viagens mais íntimas
e imperfeitas

talvez sinta-me em seu miocárdio
eu sou o extase das ausências
ao te confortar
confronto-me sendo
nada e tudo
nula e completa

sou objeto direto
reto e sem aforismos
substantivo feminino
singular
mulher

minha mulher

sexta-feira, março 27, 2026

não me olhe






como se eu fosse um bicho
não me olhe
como se eu não tivesse limites
e não tenho
esse seu olhar de peixe morto
é recorrente

já pedi para outros
que não me olhassem assim
não funciona bem
não é de bom tom

esses olhares pressentem
esses olhares me contam
que amanhã tudo estará morto
como os olhares dos peixes
na lagoa rodrigo de freitas
ou como no rio tejo

terça-feira, maio 06, 2025

o encantamento passa



como tudo nessa vida
passa rápido
estraga logo
então consuma ante
todos os olhos
não se dispa
consuma rápido
antes que passe da hora

segunda-feira, outubro 14, 2024

transitório



ontem, vi um par de olhos no metro
eram olhos vagos
cada qual para uma direção
diria vesgos
e tão preenchidos
de alma

hoje, voltei à mesma linha azul
e aqueles olhos já não estavam
eram diversos outros
e na maioria
não estavam lá

há um tempo decorrido
em mil anos ou mais
que eu desconheço
onde passos brilhavam
onde pessoas amavam


há milhões de anos luz
não sei se no passado
ou no futuro
eu amei os olhos vesgos
e ainda os amo

quinta-feira, abril 11, 2019

é sobre celebrar



sozinha ou acompanhada
celebrar
dançar como uma onda
despretensiosa
que nem sabe que
vai morrer na praia

é celebrar os dias
os meses
os anos

tudo

é sobre a paixão
e estar apaixonada

e sobre o amor
e estar amando

sendo e estando

é sobre o agora
é sobre você



(*feliz aniversário, filha)


quarta-feira, abril 11, 2018

qual espera?



não é castigo estar longe
eu te protejo do meu
toque de midas invertido
não quero que se suje de mim
não quero o que vivo pra ti
quero você longe da minha
podridão

você me repele
pois tua pele é imaculada
teu manto é dourado
e meu cheiro fétido
estragaria o conceito
de beleza que ostentas

criança, sem ironia te digo
se proteja, assim mesmo 
como já faz
quando menos esperar 
eu jaz
e tua vida será 
o que sempre sonhou



(feliz aniversário, filha)



terça-feira, abril 11, 2017

nova entrada



é abril e nada deveria ser dito
é o mês do silêncio para mim
meus amores se ligam a esse mês
dois amores tão distantes
dois maiores amores

é abril e meu ano começa aqui
é o mês onde sou e serei
em pai e filha
sou o espírito
nada santo

é abril e aqui tudo que me resta
é encarar meus enganos 
minhas frestas
tudo de mim que não presta
vêm à cara agora
sem perdão ou pedidos

é abril a nova entrada de mais um
de não sei quantos que virão
a certeza que fica é que às vezes
um abraço ou dois
e palavras amenas acalmam
a alma


(feliz aniversário, filha)

segunda-feira, abril 11, 2016

onze de abril



as pegadas na areia
por vezes se apagam
com as ondas
por vezes 
com o vento
chuva
tempo

e assim 
tão pouco 
poderia ser dito
de concreto 
sobre



   isso poderá ser um
dentre tantos passos
que eu dei na areia
 e os pés se afundaram
      antes da onda vir
                e apagar o que
                        importa
                    quem sabe
                    esse passo
                     fique aqui
                  te amo muito
                        filha



(*feliz aniversário, filha)




sábado, abril 11, 2015

o sopro



quando as velas do tempo
já não importarem
e o firmamento já
se impor como único
lembra sempre que te amei
e amo

amar é eterno
mesmo à sombra da ilusão
ele permanece na veia
no DNA que pode odiar
mas é disso que é feita

como bem cantou Chico Buarque
"oh, pedaço de mim
 oh metade extirpada de mim"

e por aí pegue o viés do amor
e leva para os seus, meus
que mesmo que negue e renegue
assim serão...

(*feliz aniversário, filha)

quinta-feira, dezembro 04, 2014

entre lábios e clitóris


confronta a sede dialética
coincide e confunde-se
em exultações e rigidez
conas e bocas são iguais
entre incisivos subvertem

vigoram como armadilhas.

terça-feira, novembro 04, 2014

oculta estrada


entre o negro e o nada
que desce sem intenção
semântica e se afoga
em quadros de Dali.



sábado, outubro 04, 2014

masturbação


em ódio amoroso
famintos e caídos
descobrimo-nos
fracos e falidos

a cólera da boca
abrasa peito e vulva
falo e língua
ressoam

sós.

quinta-feira, setembro 04, 2014

ensaio vermelho


canção tingida
encarnada boca rija
chicote ímpio
das esquerdas, de paixões
devassidões e taras
conjugar-te rubro

flameja-me escarlate.

segunda-feira, agosto 04, 2014

ele

tinha napalm
na língua

ainda procuro
meus pedaços.


sexta-feira, julho 04, 2014

amor ao mar


sal e água
na onda da idade
sopram em cais
abandonado

o tempo
não aflige mais
do que a saudade

de ter para onde voltar.

quarta-feira, junho 04, 2014

voraz



cravei-te
em minha
boca falida

      que beija-te o falo
     e quer-te a vida!

segunda-feira, maio 05, 2014

palavras


entoaria grandes versos se tivesse algum
diria grandes palavras movediças
se meu peito fosse algum pântano
ensinaria ao meu filho sobre amores
se soubesse o caminho certo

ah, nessa madrugada muitas flores morrerão
meu peito murchará, fino botão
de pétala em pétala chorará dores
tal lágrimas de orvalho nesse tempo angustiado
onde está a sabedoria das coisas ínfimas e planas?

sinto o alvorecer calmo e ele está fora de mim
estarei só mais uma vez diante de tudo
prisioneira da falta de lógica do ansiar
do desequilíbrio das linhas ferozes e do tempo
e eu anseio mais que todos

o verbo é ancião de passagem
e eu perdi suas verdades.



*(ilustração também é de minha autoria)

insone



feche os olhos agora
e tudo está cheio dos cantos da noite
alcançando planaltos e vales
poupando apenas nossa estrela

sinta o canto escuro
que ecoa em nosso corações
distantes e cansados de sonhar
ansiando por verdades tolas

feche os olhos e ouça
os pássaros que cantam para amantes
e amores fadados
à dor e à tristeza

sinta o acalanto negro
que só o albor matutino apaga
e despreze todo o resto

sinta minha mão sobre a sua
mesmo estando assim
tão apartadas nossas carnes

somos ecos amorosos
cantigas que sombreiam
o silêncio da aurora



*(ilustração também é de minha autoria)

domingo, maio 04, 2014

chama,

chama,
o ardor de meu nome
em aflição
degusta cada sílaba
que em sua boca
o vocativo arde
derrete, queima e ecoa

nos meus sentidos